Me cadastrei pra pegar os convites do show da Claudia Leite pros clientes da NET.

Outro dia, li uma coisa para a qual nunca tinha me atentado: se o universo é constituído de milhares e milhares de estrelas e corpos que emitem luz, por que o vemos como um manto negro coberto com alguns pontinhos de luminosos? Não era pra vermos um só clarão único?

A resposta é que, apesar de existirem bilhões de corpos luminosos, a luz que eles emitem não consegue chegar até nossos olhos porque eles se afastam da Terra com uma velocidade muito superior à velocidade da luz. (Ai desses astros, que ao se afastarem perdem sua razão de ser, já que estrela só foi feita mesmo pra terminar no olho de um homem).

Fiquei pensando se essa não é a melhor metáfora para se descrever as relações que cravamos diariamente, se no final das contas o que há é um monte de gente se dispersando numa velocidade maior do que a capacidade que a vida tem de fazer encontrar. Ai de nós que nem chegaremos a ver tantas outras estrelas, que existirão só mesmo na forma do seu nada, do manto negro.

A felicidade da minha vida é ficar assim, com as costas  ardendo por causa do sol do Rio de Janeiro. Tem coisa melhor?

A psicologia da classe média é mesmo digna de estudo: pois que comprei uma LCD aqui pra minha casa paulista e estou todo feliz com ela. Se pudesse, ficava, assim, o dia todo só por conta de ver os canais-que-sempre-tive, como se a programação tivesse se alterado só porque a tv é novinha. O cheiro de plástico novo é dos melhores prazeres produzidos pela civilização.

O que eu queria dizer: é que por causa da LCD comprei um box com DVDs da Nina e da Ella Fitzgerald. Na verdade, o que eu queria mesmo é ter em casa o vídeo da Nina cantando “Feelings”. O que mais me comove nessa interpretação  é a briga dela com a letra da canção. Ela diz: “que droga ter que cantar uma música como essa…eu não acredito nas condições que produziram essa letra”.É de uma grandeza sem tamanho. Talvez por isso Nina me comova tanto: porque não canta apenas palavras, mas elabora todo um ritual de respeito e entendimento do que está proferindo.

Como ela, sofro por ter que cantar uma letra como “Feelings”, sofro por ter que reconhecer que essa música me explica inexoravelmente. Ai de mim.

Parabéns pro Tomzinho do Vinicius, maestro de toda minha alma, que hoje completa 83 aninhos.

A felicidade da minha vida é saber que sábado que vem estarei no Rio de Janeiro. Chego bem cedo, nas primeiras horas da manhã, e vou direto para Ipanema, pra me reconciliar com o mar. Preciso ouvir intimamente a sua voz, porque, quando estamos sós, ele é como um milagre criado só pra mim.

Essa semana, li O que é o contemporâneo? do impossivelmente ótimo G. Agamben. Queria escrever um texto só pra ele, mas não tenho tempo, tenho que viver. Então vai a parte que mais me sensibilizou do livro:

“a amizade é a condivisão que precede toda divisão, porque aquilo que há para repartir é o próprio fato de existir, a própria vida. E é essa partilha sem objeto, em com-sentir originário”.

Me explica muitíssimo, porque ai de mim sem meus amigos com quem reparto a própria existência.

E esse tal de Kid Abelha canta umas musiquinhas tão bonitinhas: “sempre vai haver uma canção cantando tudo, tudo de mim”.

Um senso comum é lamentar a escassez de “bons compositores” no Brasil, atualmente. Olhamos pros Chicos, Caetanos, Vinicius, Cartolas e choramos por não termos ninguém do porte deles andando por aí (nos esquecemos até mesmo que Chico e Caetano estão quentinhos-da-silva, basta ver os dois excepcionais últimos álbuns do Caetano e o Carioca, do Chico). Um dos novos cds de Maribeth, porém, mostram que o fim do mundo ainda não é agora e que, sim, temos um monte de gente muito boa compondo intensamente, graças a deus. Refirimo-me ao Tua, que tenho escutado exaustivamente (não posso falar nada por enquanto do Encanteria, que só ouvi uma ou duas vezes).

Além da música da Calcanhotto – impagável – fascino-me várias vezes com a terceira faixa, “O que eu não conheço”, de Jorge Vercilo e J. Velloso:

O mais importante em mim
é o que eu não conheço
o que eu não conheço

Acho essa estrofe de uma compreensão sem limites, assim como a que vem logo em seguida: ”o que de mim aparece/
é o que dentro de mim Deus tece”. Parece coisa de um Manoel de Barros, esse reconhecimento de que o que vale é aquilo que não tem nome e do qual não se pode dar uma prova de existência.

Outra que tenho especial-paixão é “Você perdeu“, de Márcio Valverde e Nélio Rosa. Sobretudo, porque é bem a minha bandeira, bem a minha verdade. É que há pessoas que nos oferecem só “o que naufraga(…) só o que mingua”, daí, depois, nosso amor aprende a falar outra língua. Assim, só nos resta cantar, com toda felicidade e alegria:

Foi você quem se perdeu de mim
foi você quem se perdeu
foi você quem perdeu
você perdeu

Hoje tenho quem desvele
quem me vista à fantasia
quem escreva em minha pele
coisas que eu não lhe diria

E tem mais acho que só vendo Maribeth interpretando (vide o 1min:27s) pra entender o sentido do “você perdeu”.

Estava sumido porque andava fazendo samba  e amor e trabalhando também, ai de mim. Essa história de formatura é tão complicada. A gente fica com uma comoção dos diabos.

-Amália Rodrigues tá lá no céu te aguardando…

- Me aguardandôôô? Vai você antes de mim.

 Ainda tenho uma síncope com essa mulher e vou encontrar Amália antes dela.

O que eu estou lendo

O jardim de cimento, Ian Mcewan

Desonra, J.M. Coetzee

As brasas, Sándor Márai

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